Ana Cabral: "A Conservação e Restauro é uma forma de honrar e respeitar os nossos antepassados e a nossa História."
Ana Cabral é conservadora-restauradora na Divisão Municipal de Museus do Município do Porto. Atualmente, dá continuidade ao seu percurso académico com um Doutoramento na Escola das Artes da Universidade Católica, dedicado à obra de António Carneiro. Foi na Escola das Artes que encontrou, antes ainda, a resposta ao simultâneo interesse pela ciência e pela arte, na Conservação e Restauro, concluindo a licenciatura e o mestrado, com especialização em Pintura. Nesta entrevista, recorda um percurso académico marcado pela proximidade entre alunos e professores e por uma forte componente prática. Fala ainda das diferentes dimensões da profissão de conservador-restaurador, da importância da conservação preventiva e do papel da investigação na preservação do património cultural.
Em que consiste, na realidade, o trabalho de um conservador-restaurador?
O trabalho de um conservador-restaurador pode seguir diferentes vias. A mais prática, e que todos facilmente associam à profissão, consiste em estabilizar uma obra e devolver-lhe a possibilidade de interagir novamente com o público, garantido a sua correta leitura e comunicação. Há também uma via mais ligada à gestão de coleções, menos interventiva, mas mais preventiva. Aqui o foco é a preservação dos bens culturais garantindo que estes perdurem no tempo para as gerações futuras. Por fim, temos o caminho da investigação que é fundamental para o avanço do conhecimento sobre os fenómenos de degradação, as boas práticas e os materiais a utilizar nas intervenções.
“A Escola das Artes é uma instituição bem preparada para a componente prática dos cursos e com um ambiente de acompanhamento próximo”
O que a levou a escolher a Conservação e Restauro como área de estudo?
Desde cedo que os meus gostos se dividiram entre as ciências exatas - principalmente matemática e físico-química e a arte (com um especial fascínio pela pintura). Sempre tive uma ligação forte às Belas-Artes e uma grande vontade de seguir este caminho, no entanto, acreditava que o património artístico seria algo presente na minha vida, sobretudo como lazer e não como carreira. A descoberta da profissão de conservador-restaurador fez-me acreditar que era possível conciliar todos os meus interesses numa única escolha profissional, sem ter de excluir nenhum deles.
Na Escola das Artes concluiu a licenciatura e o mestrado, com especialização em Pintura. Como recorda esse percurso
Faço um balanço muito positivo da minha experiência. A Escola das Artes é uma instituição bem preparada para a componente prática dos cursos e com um ambiente de acompanhamento próximo entre aluno e professor, algo essencial para as aprendizagens técnicas. Destaco ainda as unidades curriculares comuns às várias licenciaturas, que nos dão um enriquecimento cultural importante para esta área.
Há alguma unidade curricular ou projeto que a tenha marcado particularmente no seu percurso na Universidade Católica?
As Campanhas de Verão onde os alunos eram desafiados a pôr literalmente mãos à obra. Houve um ano em que participámos numa campanha de estabilização e tratamento estrutural de um pequeno retábulo de uma capela em Ponte de Lima. Isso obrigou-nos a trabalhar fora de casa, em andaime, e em contacto com os desafios reais do contexto de obra, em que muitas vezes não temos todos os recursos necessários e em que precisamos de articular esforços e adaptar soluções, e que reflete bem uma importante realidade do trabalho do conservador-restaurador.
Atualmente trabalha na Divisão Municipal de Museus da Câmara Municipal do Porto (CMP). Como é o seu dia a dia?
A Divisão Municipal de Museus inclui uma enorme diversidade de lugares, objetos e equipas com que articulo e colaboro, tornando a rotina bastante dinâmica. No trabalho diário, as minhas funções passam muito pela conservação preventiva, pelo apoio à gestão e inventário de coleções e pela orientação e formação das equipas dos vários espaços nesta área. Acompanho o transporte de objetos e a montagem de exposições, avaliando o estado de conservação antes, durante e após a sua exibição.
Realizo também diagnósticos, propostas de tratamento, tratamentos de conservação e restauro e acompanhamento técnico de tratamentos quando estes são executados por entidades externas. Colaboro ainda em projetos de investigação associados às coleções como algo indispensável para complementar a abordagem da História da Arte e adotar as melhores medidas de preservação.
“A conservação preventiva equivale aos hábitos saudáveis que podemos adotar para evitar doenças”
A conservação preventiva é, muitas vezes, invisível para o público. Porque é tão importante e que fatores procuram controlar nos museus?
A conservação preventiva é o pilar da conservação e restauro, ajudando a prolongar a vida do objeto. Fazendo a analogia com a medicina: a conservação preventiva equivale aos hábitos saudáveis que podemos adotar para evitar doenças. Seguindo essa lógica, procuramos minimizar todos os fatores que podem colocar uma obra em risco, desde o erro humano, através de formação técnica e da definição de procedimentos de trabalho, até às condições ambientais. Adotamos medidas “saudáveis” de prevenção para evitar ter de intervir (restaurar).
Nos museus, o primeiro passo é sempre a monitorização contínua. Só depois é possível perceber como e quando controlar fatores como a temperatura, a humidade relativa ou a luz, recorrendo aos sistemas disponíveis em cada edifício. Alguns têm sistemas integrados, outros não, contudo, e tendo em conta que o Porto é uma cidade muito húmida, dificilmente conseguimos prescindir da utilização de desumidificadores. Já no caso da luz, por exemplo, utilizam-se filtros, blackouts e a regulação da intensidade luminosa, que é ajustada de acordo com a tipologia de cada objeto exposto.
“Um conservador-restaurador deve ser alguém resiliente, extremamente observador e atento ao detalhe, capaz de criar pontes entre diferentes áreas do saber”
O que mais a fascina nesta profissão?
O que mais me fascina é olhar de perto os objetos, compreender a sua matéria e a sua técnica - reflexo do pensamento artístico, cultural e identitário de um País, povo ou comunidade, que deve ser preservado e transmitido para as gerações futuras. É também uma forma de honrar e respeitar os nossos antepassados e a nossa História.
Que competências são essenciais para um conservador-restaurador?
Deve ser alguém resiliente, extremamente observador e atento ao detalhe, capaz de criar pontes entre diferentes áreas do saber. O desempenho de um trabalho de qualidade exige conhecimentos técnico-artísticos aprofundados e uma forte interdisciplinaridade, em diálogo com especialistas de outras áreas (como História, Química ou outras especializações de Conservação e Restauro) para compreender melhor cada obra antes de intervir.
Há alguma intervenção que a tenha marcado particularmente no seu percurso profissional?
Antes de entrar para a Câmara do Porto, fiz parte da equipa que esteve envolvida no restauro do interior da igreja de Santa Clara no Porto. Ainda que não tenha acompanhado a obra até ao fim, foi um projeto muito desafiante, estimulante e que teve um resultado “mágico”. Foi um privilégio poder contribuir para devolver ao público o esplendor da luz e cor da talha dourada daquela Igreja tão importante na cidade do Porto.
Recentemente, deu continuidade ao seu percurso académico na Universidade Católica com um Doutoramento. Como surgiu esta oportunidade?
Essa oportunidade surgiu depois de entrar para a Divisão de Museus da CMP, que tem no seu espólio um núcleo importante de obras, objetos e documentos de António Carneiro, um pintor importante para a História de Arte Portuguesa já que representa a viragem do Naturalismo para o Simbolismo. O facto de ter contactado de perto com estes objetos, e de se ter iniciado um projeto da CMP para aprofundar o conhecimento sobre o seu espólio, fez-me perceber que ainda havia muito por explorar sobre António Carneiro.
Em que consiste a investigação que está a desenvolver?
A minha investigação centra-se no estudo material e técnico da pintura a óleo de grande formato de António Carneiro. Este pintor teve a sua atividade artística no início do século XX, numa época marcada pela experimentação e introdução de novos materiais de Belas-Artes, nomeadamente pigmentos, que nem sempre apresentavam grande estabilidade a longo prazo, ou telas de algodão, que apresentam desafios na sua conservação.
O objetivo é caracterizar os materiais e as técnicas utilizadas de modo a compreender melhor os processos de degradação atualmente identificados ou que possam vir a surgir no futuro. Paralelamente, pretendemos mapear o seu processo criativo, como é que estudava as suas composições desde o esquisso até à obra final, compreendendo melhor a forma como planeava e construía as suas pinturas.
É conservadora-restauradora, investigadora e mãe de três filhos pequenos. Como consegue conciliar todas estas dimensões?
Não há receitas mágicas: é difícil e exige abdicar de muitas coisas. O meu foco principal tem sido gerir as expectativas e aceitar os meus limites com serenidade. Como o meu tempo é limitado, não posso exigir de mim o que faria se estivesse dedicada a 100% a apenas uma das tarefas. No entanto, este equilíbrio não se faz sozinho. O doutoramento foi um projeto partilhado desde o início com a família e tenho a sorte de ter uma rede de apoio incrível e muito disponível. O meu marido, os meus pais, sogros, irmãos e cunhados têm sido fundamentais; são eles que me dão a tranquilidade de saber que os meus filhos estão bem entregues e felizes quando tenho de me ausentar.
