LIFE ReFitting: projeto europeu testa novas tecnologias de tratamento de águas residuais em Portugal
Há desafios que não esperam e a qualidade da água que devolvemos ao ambiente depois de a utilizarmos (nas nossas casas, hospitais, fábricas) é um deles. É precisamente aqui que entra o LIFE ReFitting, um novo projeto europeu coordenado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) que arranca oficialmente a 1 de junho de 2026 e se estenderá até novembro de 2029.
Com financiamento do Programa LIFE da União Europeia, o projeto nasce com a missão de acelerar a adoção de soluções inovadoras já testadas em projetos europeus anteriores, em particular no LIFE FITTING (2023–2025), e colocá-las ao serviço da implementação da nova Diretiva Europeia das Águas Residuais Urbanas (DARU).
Consórcio com competências complementares
O LNEC não está sozinho nesta missão. O consórcio reúne quatro parceiros portugueses com valências distintas, mas complementares. Os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS Almada), a Universidade Católica Portuguesa (UCP) e o Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) são as entidades nacionais participantes e juntos cobrem áreas que vão da engenharia sanitária à monitorização ambiental, passando pela inovação tecnológica, saúde pública e gestão de infraestruturas.
O projeto conta ainda com um Conselho Consultivo de peso, integrado pela APA – Agência Portuguesa do Ambiente, pela ERSAR – Entidade Reguladora de Água e Resíduos, pela LIS-Water – Centro Internacional sobre Políticas Públicas e pela Parceria Portuguesa para a Água (PPA). Estas entidades garantem que o trabalho desenvolvido no terreno se articula com as políticas públicas e tem real potencial de ser replicado a maior escala.
A nova diretiva europeia
A nova DARU não é uma mera atualização burocrática. Traduz uma mudança de paradigma na forma como a Europa olha para as águas residuais urbanas. Os requisitos agora exigidos são mais rigorosos e passam pelo controlo de nutrientes, remoção de micropoluentes como fármacos e PFAS, combate à resistência antimicrobiana, gestão de microplásticos, reutilização segura da água e eficiência energética.
São temas que tocam diretamente na saúde pública, na proteção dos ecossistemas e na resiliência das cidades face às alterações climáticas. E são temas para os quais nem todas as estações de tratamento de águas residuais (ETAR) estão ainda preparadas. É aqui que o LIFE ReFitting quer fazer a diferença.
O que vai ser feito, concretamente?
O projeto organiza-se em torno de cinco grandes linhas de ação.
A primeira é a demonstração de tecnologias de tratamento em condições reais de operação, capazes de responder simultaneamente aos múltiplos desafios da nova diretiva.
A segunda é o desenvolvimento da toolbox digital PLAN-DO+, que expande a ferramenta criada no LIFE FITTING com novos contaminantes-alvo, algoritmos preditivos e funções de custo, tornando-a mais útil e aplicável a diferentes contextos.
A terceira passa pela atualização de recomendações técnicas e documentos de política (policy briefs) para entidades gestoras e reguladores, incluindo cenários específicos como o tratamento de efluentes hospitalares.
A quarta é a criação de um roadmap de replicação, que oriente outras entidades do setor da água na adoção das soluções desenvolvidas.
E a quinta é o reforço da capacitação técnica do setor, através de formação, disseminação e envolvimento de parceiros estratégicos.
ETAR de Valdeão como laboratório vivo
O coração operacional do projeto bate na ETAR de Valdeão, gerida pelos SMAS Almada. Esta infraestrutura tem uma característica que a torna especialmente relevante para os objetivos do projeto, já que recebe um contributo significativo de efluentes hospitalares, o que coloca desafios acrescidos em termos de contaminantes e resistência antimicrobiana.
Neste contexto real de operação, serão testadas oito tecnologias e processos de tratamento: lamas ativadas, carvão ativado em pó doseado no reator biológico, radiação UV, ultrafiltração, microfiltração cerâmica, processo híbrido de carvão ativado em pó e microfiltração cerâmica, filtros de carvão ativado granulado e cloragem.
A monitorização rigorosa dos afluentes, efluentes e lamas permitirá avaliar o desempenho, custo, risco e ciclo de vida de cada opção, dados fundamentais para apoiar decisões de investimento e planeamento estratégico no setor.
Transição rumo à poluição zero
O LIFE ReFitting não é apenas um projeto de investigação. É um instrumento de mudança para um setor que precisa de evoluir depressa e com base em evidência sólida. Ao demonstrar soluções viáveis em ambiente real e ao disponibilizá-las de forma acessível a entidades gestoras e reguladores, o projeto contribui diretamente para os objetivos europeus de poluição zero, reutilização segura da água e proteção da saúde pública.
Para Portugal, que coordena o consórcio, representa também uma oportunidade de afirmar competência técnica e científica num domínio crítico para o futuro das cidades e dos territórios.
