Ilídio Pinho: “A Católica pode desempenhar um papel excecional na resposta aos desafios culturais e estruturais que Portugal enfrenta.”

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Ilídio Pinho, nascido a 19 de dezembro de 1938, é natural de Vale de Cambra. Figura de destaque no mundo empresarial, é fundador e presidente da Fundação Ilídio Pinho, da Ilídio Pinho Holding e da Fomentinvest, entre outras iniciativas. Reconhecido pelo seu contributo para o desenvolvimento económico e social, é igualmente um destacado mecenas da Universidade Católica Portuguesa.

Iniciou o seu percurso em 1964, com a criação da COLEP Portugal – Embalagens, Produtos, Enchimentos e Equipamentos, S.A., empresa que se tornou na maior da sua área a nível europeu. Durante o seu percurso, assumiu cargos de elevado relevo empresarial e participou em empresas de diversos setores como o metalúrgico, o segurador e o bancário entre outros, demonstrando as características de empreendedor dinâmico e inovador.

O contributo de Ilídio Pinho para a economia, o ensino superior, as artes e a valorização humana tem sido amplamente distinguido ao longo do seu percurso, através de inúmeros reconhecimentos. Entre estes destacam-se a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a Medalha de Mérito Cultural atribuída pelo Estado português, a Medalha de Ouro da Universidade Católica Portuguesa e o título de Doutor Honoris Causa pela mesma instituição, entre outras distinções que sublinham a relevância do seu impacto em diferentes áreas da sociedade.

Nesta entrevista, fala-nos sobre a sua visão acerca do desenvolvimento do país, o papel da ciência e da inovação, a sua relação próxima com a Universidade Católica e os sonhos que tem para Portugal.

 

Quais são as memórias da sua infância?

Nasci antes da Segunda Guerra Mundial, em 1938, numa terra conhecida como a terra dos leiteiros e dos serranos. Em Vale de Cambra, não havia ruas nem caminhos alcatroados, era tudo terra batida. Os automóveis eram carroças e a maioria das pessoas andava descalça, em condições muito duras. A eletricidade era pouca e de muito má qualidade e a assistência à saúde praticamente não existia. Quando comparo esse tempo com o de hoje, penso muitas vezes que somos ingratos quando nos queixamos. Sofria-se muito mais e em condições verdadeiramente desumanas. Essa realidade ensinou-me a combater o desperdício e nunca deixei de levar isso para a minha vida profissional. Tanto valor dou ao muito como ao pouco.

 

“ (…) quem não tiver espírito de sacrifício e capacidade de resistência ao sofrimento, dificilmente consegue ser empresário.”

 

Essa infância moldou a forma como olha para o trabalho e para as empresas?

Completamente. Quando vinha das aulas, descia logo para as oficinas e dizia ao meu pai: “Já cá estou.” E o meu tempo passava a ser usado ali. Trabalhavam-se seis dias por semana e ao domingo ainda se desenhava, calculava e faziam-se orçamentos. Foi nesta realidade que cresci. E, talvez por isso, diga também que, quem não tiver espírito de sacrifício e capacidade de resistência ao sofrimento, dificilmente consegue ser empresário.

 

Como olha para a evolução de Vale de Cambra e da indústria portuguesa?

Vale de Cambra não tinha condições para ser um concelho empresarial. Os acessos eram maus, a energia elétrica era péssima, não havia apoio à saúde, nem escolas técnicas, nem justiça próxima. E, no entanto, hoje tornou-se uma das maiores plataformas tecnológicas do país, com empresas capazes de, em cluster, fornecer fábricas completas para qualquer parte do mundo. Isso mostra a extraordinária capacidade da metalomecânica portuguesa. Hoje, empresas daquela região exportam para dezenas de países e têm relações comerciais globais. Quando olho para trás, sinto bem o sofrimento do caminho que foi feito.

 

Apesar dessa evolução, Portugal continua a ser frequentemente referido como um dos países menos desenvolvidos da Europa…

Adoro o meu país com paixão patriótica e tenho por isso um grande desgosto. Somos, de facto, um dos países menos desenvolvidos da Europa em termos tecnológicos e científicos. E isso acontece porque a cultura tecnológica nunca foi verdadeiramente valorizada como devia. Durante 17 anos, a Fundação Ilídio Pinho promoveu o programa “Ciência na Escola”, em que participaram cerca de meio milhão de alunos e professores. Surgiram milhares de projetos inovadores. A ideia era aproximar as escolas das universidades e das empresas, criando uma cultura científica desde cedo. Infelizmente, o então Ministro da Educação, decidiu acabar com este projeto com enormes prejuízos para a cultura tecnológica escolar.

 

Porque é que considera tão importante começar cedo essa ligação à ciência?

A iniciação científica devia começar logo no pré-primário. Tal como uma árvore depende da qualidade das raízes, também uma sociedade depende da formação de base que dá aos seus jovens. O programa “Ciência na Escola” permitia aos alunos trabalhar em grupo, debater ideias, enriquecer projetos e descobrir vocações. E isso é decisivo e estratégico para o país. Muitos jovens chegam à universidade sem saber verdadeiramente qual é o seu talento ou a sua vocação. Por outro lado, quando os alunos levam a ciência e a tecnologia para casa e começam a falar disso com os pais, irmãos e família, estão também a transformar culturalmente a sociedade. E foi precisamente o fim dessa cultura científica, iniciativa da Fundação Ilídio Pinho em parceria com o Ministério da Educação, “Ciência na Escola”, cuja falta tem sido um enorme prejuízo para Portugal.

 

De quem herdou o seu espírito empreendedor?

A minha mãe vinha de uma família ligada aos laticínios. Vale de Cambra era, aliás, considerada o berço dessa indústria. Do lado da família da minha mãe havia uma forte vocação comercial. O meu pai tinha um talento extraordinário para o trabalho. Foi um trabalhador nato. Começou por trabalhar numa fábrica, tornou-se encarregado e, depois de casar com a minha mãe, estabeleceu-se por conta própria. Cresci neste ambiente. Desde criança escolhia sucata e aprendia a reaproveitar materiais. Fui aprendendo a desenhar, calcular e a trabalhar com as mãos. Durante toda a juventude, vivi muito ligado à produção e à tecnologia. Ao mesmo tempo, tornei-me um insatisfeito no melhor sentido da palavra. Sentia sempre que queria mais. Metade do meu tempo como estudante era passado a imaginar o que queria fazer e como poderia construir algo diferente. Toda a minha vida ficou ligada à produção, ao desenvolvimento tecnológico e à organização industrial. Foi esse percurso que me preparou para, em 1964, fundar a COLEP.

 

Como conseguiu transformar a COLEP numa referência internacional?

O sucesso da COLEP assentou numa ideia fundamental: controlar toda a cadeia de valor. A COLEP começou a fabricar simples latas para bolachas. Com o tempo, integrou toda a cadeia produtiva. Essa integração tornou a empresa extremamente robusta. Se uma área atravessa dificuldades, as outras compensam. Foi esta estratégia que permitiu à COLEP tornar-se uma das maiores empresas europeias do setor, com fábricas em vários países. Aprendi também que o sucesso depende da capacidade de aproveitar os acasos da vida. As oportunidades surgem para todos, mas só as aproveita quem está preparado. E essa preparação, aliada à visão, ao trabalho e à coragem determinada de decidir, foi decisiva.

 

“A velocidade é hoje um fator decisivo de competitividade.”

 

Como é que nos preparamos para aproveitar as oportunidades da vida?

Com trabalho, talento, visão e, sobretudo, conhecimento. O empresário é um criador. Costumo compará-lo a um artista. É alguém que nunca está satisfeito, que está sempre a imaginar como fazer mais e melhor. Mas a preparação faz-se, acima de tudo, através do conhecimento. Um empresário não pode limitar-se a conhecer apenas a realidade do seu país. Tem de conhecer o mundo, perceber como vivem outras sociedades, como trabalham outras empresas e que soluções já existem noutros mercados. Caso contrário, pode pensar que está a inovar quando, noutro lugar, essa ideia já está obsoleta. Foi isso que procurei fazer ao longo da vida: viajar, visitar fábricas, observar diferentes culturas e aprender continuamente. Nunca me reformei dessa vontade de aprender.

 

De que forma é que a tecnologia está a transformar a maneira como as empresas fazem negócios?

A ciência tecnológica trouxe um novo fator estratégico: a velocidade. No passado, era aceitável esperar. Hoje, esperar é uma forma de sofrimento. Vivemos num tempo em que é necessário responder imediatamente. Essa rapidez tornou-se uma exigência fundamental da economia contemporânea e obriga empresas e instituições a repensarem os seus processos e a sua capacidade de decisão. Essa é uma das grandes questões do nosso tempo. A velocidade é hoje um fator decisivo de competitividade. Quem demora a responder perde oportunidades. Portugal e a Europa têm de compreender que o tempo passou a ter um valor estratégico.

 

Ao longo do seu percurso profissional, a inovação tem sido uma constante. Como é que define inovação?

Einstein dizia que tudo o que é possível não é inovação. Só é inovação aquilo que hoje parece impossível. É isso que mais me entusiasma: a capacidade humana de tornar realidade aquilo que, à partida, parece impensável.

 

“A Universidade Católica é uma instituição com características únicas (…)”

 

É um destacado mecenas da Universidade Católica Portuguesa. Foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa, recebeu a Medalha de Ouro da Universidade e, mais recentemente, tornou-se parceiro fundador do Centre for Impact in Global Management (CIGMA). O que representa, para si, essa ligação tão próxima à Universidade?

O sentimento de que a Católica para mim “é casa” tem raízes muito profundas e resulta de uma ligação construída ao longo de mais de quarenta anos. Fui membro da Comissão Administrativa da Universidade Católica - no Porto - durante doze anos, acompanhei momentos muito importantes da sua história e mantive sempre uma relação de grande proximidade com a instituição. Quando entro na Católica, não sinto que estou numa instituição qualquer. Entro num espaço que faz parte da minha vida.

 

O que representa, na sua perspetiva, a Universidade Católica no contexto português?

A Universidade Católica é uma instituição com características únicas, pelas suas relações internacionais, pela sua simbologia e pelos princípios humanistas cristãos em que assenta. Acredito que a Católica pode desempenhar um papel excecional na resposta aos desafios culturais e estruturais que Portugal enfrenta. É uma universidade com capacidade para pensar o país de forma estratégica e para contribuir de forma decisiva para o seu desenvolvimento.

 

Acredita que Portugal pode assumir um papel mais relevante no mundo?

Sem dúvida. Durante muitos anos, Portugal foi visto como um país periférico da Europa. Hoje, essa visão já não faz sentido. As mudanças geopolíticas em curso e a necessidade de uma maior autonomia europeia transformaram Portugal num país altamente estratégico. Pela sua localização, pela dimensão do seu espaço marítimo e, sobretudo, pelas excelentes relações históricas que mantém com todos os continentes, Portugal pode tornar-se uma plataforma de ligação da Europa ao mundo.

 

“Sonho com um Portugal em grande.”

 

O país está consciente do seu potencial?

Infelizmente, ainda não. Portugal possui condições únicas para assumir um papel muito mais relevante no contexto internacional, mas ainda não definiu uma estratégia suficientemente ambiciosa para concretizar esse potencial. Não somos apenas este pequeno território continental. Somos um país com uma enorme projeção marítima e com uma presença histórica e cultural reconhecida em todo o mundo. Isso representa uma vantagem estratégica extraordinária.

 

Como é que sonha Portugal?

Sonho com um Portugal em grande. Um país consciente do seu valor, do seu talento e da sua posição estratégica. Um país que aposta no conhecimento, na tecnologia e na formação das pessoas. Um país que cria confiança e estabilidade, porque sem confiança política e estabilidade não há investimento. Gostaria verdadeiramente de ver Portugal plenamente capaz de aproveitar as suas vantagens competitivas e de afirmar-se como um centro de conhecimento, inovação e ligação entre a Europa e o resto do mundo.

 

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21-05-2026