Manuel Dinis: “Tive de ter a coragem de assumir que a arte seria parte do meu futuro”

Pessoas em Destaque

Manuel Dinis é estudante da Licenciatura em Conservação e Restauro na Escola das Artes da Universidade Católica, e guitarrista na banda Nunca Mates o Mandarim. Nesta entrevista, fala sobre o percurso que o levou a encontrar a licenciatura que o “apaixona” - “um curso completo, que inclui a vertente artística, mas também a vertente mais científica”. Dá também a conhecer o processo criativo dentro da banda, e alguns momentos que o marcaram, incluindo a participação no Festival da Canção, e a “energia única” de pisar palcos como o do Primavera Sound. Sobre conciliar os estudos com a música, partilha o “equilíbrio enriquecedor” de gerir tempo e motivação entre as duas áreas, deixando ainda uma palavra de “perseverança” a quem procura o seu caminho na área artística.

 

Que conselho daria a alguém que está a pensar estudar na Escola das Artes?

Se estão a pensar em entrar aqui é porque já há alguma coisa que vos puxa - seja para cinema, para som e imagem ou para conservação e restauro. O principal conselho que daria é explorar bem o curso e o ambiente antes de tomar uma decisão: olhar para o plano curricular completo, visitar a faculdade, conhecer as oficinas, os materiais e, se possível, falar com professores e estudantes. Participar em Open Days, e outras atividades na faculdade também ajuda muito a perceber o contexto em que vamos estar.
E depois, para quem possa ter dúvidas, como eu tive, há uma coisa que acho essencial: a perseverança. Houve alturas em que me senti completamente perdido, sem perceber muito bem qual seria o meu caminho. Mas continuei a procurar, a experimentar coisas novas… E dei tempo ao tempo. As coisas acabam por se alinhar - e encontrei algo de que realmente gosto.

 

“Ao ver o plano curricular de Conservação e Restauro, adorei o facto de ser um curso completo, que inclui a vertente artística, mas também a vertente mais científica”

 

Como é que descobriu o interesse pela Conservação e Restauro?

Antes de mais, tive de ter a coragem de perceber que gostava de fazer outra coisa e de assumir que a arte seria parte do meu futuro. Desde os 13 anos, comecei a tocar guitarra e o meu sonho era ser músico. Quando terminei o secundário, fiz um Gap Year. Trabalhei numa livraria, que tinha uma parte de encadernação e percebi logo aí que gostava daquela área manual. Ao ver o plano curricular de Conservação e Restauro, adorei o facto de ser um curso completo, que inclui a vertente artística, mas também a vertente mais científica, para conhecer os materiais e saber restaurá-los. Foi essa perspetiva completa do Restauro que me trouxe cá.

 

Que balanço faz da licenciatura até agora?

Acabei por me apaixonar pela área. É um curso que nos forma em aspetos muito diferentes, desde história da arte, fotografia, cadeiras práticas, escultura, físico-química. E descobri que gosto mais de algumas coisas do que imaginava: fascinou-me uma cadeira, logo no primeiro ano, sobre materiais inorgânicos, sobre metais e pedra, ou seja, restauro de igrejas e mosteiros; e agora mais recentemente, o papel.

 

A música continua a ter um papel importante na sua vida - é guitarrista na banda “Nunca mates o mandarim”. Como surgiu este projeto musical?

Somos três - eu, o Campelo (o baterista) e o Amorim (o vocalista) - e já nos conhecíamos brevemente. Eu andava cheio de vontade de tocar e eles já estavam também a trocar ideias e músicas entre si. A certa altura, perceberam que precisavam de mais uma pessoa para contribuir para o processo e lembraram-se de mim. Fomos tomar um café e percebemos logo que estávamos todos na mesma página.  Nunca Mates de Mandarim foi o nome escolhido, é uma referência ao livro O Mandarim, de Eça de Queiroz. O nosso vocalista estava muito inspirado em Eça para escrever as letras e as temáticas das músicas, e a expressão surge precisamente na última frase do livro, quase como uma moral da história.

 

Quais as suas principais referências artísticas?

Na literatura, primeiro, Gabriel García Marques - escreveu um dos meus livros favoritos. Na música, as minhas influências são os Beatles, John Mayer, e, na música portuguesa, Jorge Palma e Rui Veloso inspiram-me muito. Normalmente as pessoas não associam a pintura à música, mas há um pintor, Bosch, que eu sinto que influencia a minha música, nem que seja de forma inconsciente, com os mundos que cria na sua obra. Tem obras fantásticas e horripilantes.

 

O que é que querem dizer, enquanto banda, neste momento artístico?

Neste momento, por exemplo, com a música do Festival da Canção, preocupamo-nos em refletir sobre aquilo que nós vivemos e sentimos enquanto jovens - e que acreditamos que outras pessoas possam também sentir. Falar sobre algo que não é bem liberdade, mas talvez uma certa emancipação da nossa geração. A emancipação pessoal e artística são temas que nos guiam, como a cidade e a gentrificação, que estão também muito presentes na escrita do João (Amorim). Agora vamos para novos horizontes, quem sabe de que é que vamos falar a seguir…

 

“Há um equilíbrio que é enriquecedor. Posso ter estado num grande concerto, mas volto à sala de aula como qualquer aluno, para aprender coisas que ainda não sei.”

 

Que momentos em palco mais o marcaram e o que tem aprendido com essas experiências?

O concerto na Feira do Livro do Porto. Foi diferente, porque não estávamos à espera; quando chegámos ao palco, estava tudo cheio e sentimos, pela primeira vez, essa ligação muito forte com as pessoas. Estávamos a tocar em casa, toda a gente estava “na mesma onda que nós” e houve uma resposta às músicas que nos marcou muito. Tocar no Primavera Sound foi outra experiência incrível. Foi o maior palco que pisámos e não imaginávamos fazê-lo tão cedo. Mais do que o nome do festival, marcou-me a sensação de olhar em frente e ver tanta gente. Estar ali em cima e sentir aquela energia faz-nos querer continuar a tocar.
Estas oportunidades dão-me experiência, dão-me contacto com outras pessoas, e ajudam-me a refinar o que eu faço. Em cada concerto acabo por tocar alguma coisa de forma diferente e por descobrir melhor o meu som. Portanto, têm enriquecido de forma imensa o meu percurso artístico.

 

Como compatibiliza a vida artística com os estudos?

É desafiante, mas é possível. Apesar dos vários desafios, como a gestão de tempo, há um equilíbrio que é enriquecedor. Às vezes, chego à faculdade e os meus colegas dizem-me: “vi-te na televisão”, e logo a seguir estamos a falar de madeiras. Posso ter estado num grande concerto no dia anterior, mas depois volto à sala de aula como qualquer outro aluno, para aprender coisas que ainda não sei. Gosto muito desse contraste porque me ajuda a manter uma certa rotina e também alguma humildade.

 

Integra também a Tuna da Universidade Católica Portuguesa – Porto.

Sim. A tuna deu-me um novo ânimo para viver a faculdade para além das aulas e um certo sentimento de pertença à vida académica. Embora seja mais um desafio de conciliação, é também muito gratificante.

 

Que perspetivas tem agora para o futuro?

Neste momento, o objetivo passa por terminar a licenciatura e continuar para o mestrado em Conservação e Restauro de Bens Culturais, aqui na Católica. Ao mesmo tempo, quero continuar a desenvolver o percurso da banda e perceber, passo a passo, como as duas áreas podem crescer em conjunto. Embora a música seja a minha grande vocação, viver exclusivamente dela é um percurso difícil e imprevisível. Gosto da ideia de ter uma área profissional com a qual também me identifico e que consigo imaginar a conciliar com a música no futuro.

 

pt
02-07-2026