Nuno Botelho: “A Universidade Católica teve um papel absolutamente determinante no meu percurso.”
Nuno Botelho é Presidente da Associação Comercial do Porto e é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito - Escola do Porto da Universidade Católica Portuguesa. Nascido e criado no Porto, Nuno Botelho acredita que esta é uma “terra de oportunidades”. Ao longo do seu percurso, tem estado sempre ligado ao setor empresarial, aos vinhos e ao turismo. Nesta entrevista, recorda os anos de faculdade, as melhores memórias da Católica e os “professores excecionais”. Fala também sobre o papel do Porto e da Região Norte no panorama nacional e internacional e sobre a missão e desafios da Associação Comercial do Porto, a associação empresarial mais antiga do país
Como é que descreve os portuenses?
Os portuenses são pessoas frontais e dizem aquilo que pensam. Ao mesmo tempo, tendem a ser reservados e até conservadores. Não é fácil entrar na casa de um portuense ou conquistar a sua confiança. Mas, quando aceitam alguém, revelam-se extremamente leais e generosos e estão dispostos a acompanhá-lo até ao fim do mundo.
Nunca largou a cidade do Porto …
Nasci no Porto e vivi toda a minha vida aqui. Sou um portuense que construiu aqui todo o seu percurso. Gosto muito desta cidade e da região e continuo a acreditar que esta é uma terra de oportunidades.
“Hoje, o Porto é uma cidade mais cosmopolita, mais aberta ao mundo e com uma presença internacional muito mais visível.”
Tendo vivido sempre no Porto, acompanhou de perto as transformações da cidade ao longo das últimas décadas. Como olha para essa evolução?
Vejo uma cidade diferente, que evoluiu e, por isso, muito mais aberta ao mundo. O Porto sempre teve essa vocação internacional, em grande parte devido ao seu tecido industrial e à necessidade de olhar para o exterior e para os mercados de exportação. Crescemos com essa influência, em contacto com famílias estrangeiras e com realidades como as escolas internacionais, que já existiam, embora com uma dimensão muito menor do que têm hoje. Atualmente, o Porto é uma cidade claramente mais cosmopolita, mais aberta ao mundo e com uma presença internacional muito mais visível. Ainda assim, mantém um forte cunho cultural, que sempre fez parte da sua identidade.
Que lugar ocupa a cidade do Porto no contexto nacional?
Portugal olha para o Porto com admiração e orgulho, ainda que, por vezes, persista por parte de Lisboa alguma reticência e dificuldade em reconhecer a riqueza da cidade. Do ponto de vista económico, estamos na região mais industrializada do país. Mas essa riqueza não é apenas económica. Há no Porto uma forte rede social e familiar. As famílias tendem a manter laços muito próximos, criando uma estrutura de entreajuda particularmente importante em momentos de necessidade. Considero que a ligação histórica à Igreja Católica contribuiu para reforçar essa capacidade de apoio social e comunitário. Temos todas as condições para afirmar o Porto e o Norte como uma grande região e uma grande cidade.
É licenciado em Direito pela Faculdade de Direito – Escola do Porto da Universidade Católica Portuguesa. Que recordações guarda dos seus tempos de estudante?
Guardo excelentes recordações. Foi uma experiência muito marcante, sobretudo pelas amizades que construí e que se mantêm até hoje. É uma instituição pela qual tenho um enorme carinho e à qual continuo profundamente ligado. É impressionante ver a forma como a Católica evoluiu. Recordo com especial carinho o convívio académico, as festas e, acima de tudo, o contacto com professores de grande qualidade. Tive docentes excecionais, com quem continuei a manter relação ao longo dos anos e que, já fora do contexto académico, me aconselharam, apoiaram e até desenvolveram comigo algumas parcerias. Criavam-se autênticas tertúlias, num ambiente muito próximo e intelectualmente estimulante. Lembro-me de discutir a guerra no Iraque com o Professor Azeredo Lopes. Também recordo as aulas de Mundividência Cristã, onde se transmitiam ensinamentos muito valiosos sobre a forma de olhar para o outro e para a vida. Ainda assim, existia um enorme respeito pela relação entre alunos e professores. Não havia facilitismos, mas havia uma grande humanidade e um forte sentido de proximidade.
O que é que aprendeu na Católica que guarda para a vida?
Foi na Católica que aprendi a relacionar-me com os outros, a ouvir, a respeitar diferentes perspetivas e a compreender as motivações de cada pessoa. Embora não tenha seguido uma carreira em Direito, a formação jurídica deu-me ferramentas muito úteis que aplico diariamente. Ainda assim, o que mais me marcou foi a dimensão humana da formação. A Universidade Católica teve um papel absolutamente determinante no meu percurso.
“Uma boa ideia nem sempre se traduz num bom negócio”
O que o fascinou na área da gestão e o que é que continua a motivá-lo nessa área?
Ao longo da minha carreira, tive um percurso muito diversificado. Estive ligado a instituições como a Associação Comercial do Porto, criei empresas, fiz consultoria e desenvolvi projetos em áreas muito distintas. O que sempre me fascinou foi a possibilidade de criar: transformar ideias em negócios, gerar riqueza e criar emprego. O que mais me motiva é precisamente perceber se uma ideia é viável, se responde a uma necessidade real e se tem potencial para criar valor. Uma boa ideia nem sempre se traduz num bom negócio. Sempre senti que tinha essa capacidade de distinguir aquilo que faz sentido daquilo que, apesar de parecer interessante, dificilmente terá sucesso. Essa visão prática do negócio foi, desde cedo, o que mais me atraiu no mundo empresarial.
De quem herdou essa veia empreendedora?
Acredito que essa influência vem, em grande medida, do meu avô paterno. Era uma pessoa muito carismática, com uma grande força de personalidade. Tinha uma enorme capacidade de afirmar as suas ideias e de mobilizar os outros, sem nunca perder o lado humano e afetuoso.
“As novas gerações querem participar, discutir ideias, criar redes de contacto e contribuir para a definição da estratégia da região”
É presidente da direção da Associação Comercial do Porto. Como resumiria a missão da instituição?
A Associação Comercial do Porto é a associação empresarial mais antiga do país. A nossa missão é contribuir para melhores políticas públicas e para um ambiente económico mais favorável ao desenvolvimento das empresas e da região. Essa influência faz-se através da produção de estudos, da organização de conferências e da criação de reflexão independente sobre temas estruturantes.
Um exemplo desse trabalho é o estudo “Portela + 1”, desenvolvido em 2007 em colaboração com a Universidade Católica Portuguesa. Este estudo acabou por influenciar o debate público e as decisões que vieram a ser tomadas. Paralelamente, trabalhamos diariamente para apoiar os nossos associados, promovendo oportunidades de negócio, estabelecendo relações com câmaras de comércio internacionais e criando condições para que as empresas da região possam expandir-se e conquistar novos mercados.
Qual é o maior desafio de liderar a Associação Comercial do Porto?
O principal desafio é conseguir apresentar, de forma contínua, iniciativas inovadoras e úteis para os associados, demonstrando que a Associação Comercial do Porto é uma instituição dinâmica, ativa e relevante. A associação reúne uma grande diversidade de perfis, desde microempresas a grandes grupos empresariais, o que constitui uma enorme riqueza. Nos últimos anos, temos assistido a uma entrada significativa de novos associados, muitos deles mais jovens. Isso mostra que as novas gerações querem participar, discutir ideias, criar redes de contacto e contribuir para a definição da estratégia da região.
Fala-se muito do impacto do turismo nas cidades. Como olha para o caso do Porto?
No caso do Porto, acredito que houve uma fase inicial em que era necessário afirmar a marca Porto e Norte de Portugal. Fez sentido ter uma abordagem ampla, porque era importante consolidar o destino. Isso permitiu afirmar subdestinos muito relevantes, como o Douro, o Minho e Trás-os-Montes, que complementam a experiência de quem visita a cidade. Neste momento, acho que devíamos apostar mais na qualidade do turismo para conseguirmos atrair visitantes com maior capacidade de consumo e maior impacto económico. O desafio agora é qualificar esse crescimento do turismo: melhorar a oferta hoteleira, os conteúdos culturais e a experiência global do visitante.
Há uma oportunidade importante de transformação económica: muitos visitantes acabam por regressar ou até investir, seja em habitação, em hotéis ou em negócios.
Sendo o Porto uma cidade de oportunidades, como referiu, o que falta para reforçar essa sua vocação?
É fundamental, em primeiro lugar, uma cultura mais aberta ao investimento ao nível do Estado central. Muitos projetos ficam bloqueados por falta de decisão e por processos administrativos demasiado lentos. Enquanto continuarmos com este nível de burocracia, perde-se tempo, perdem-se oportunidades e torna-se muito difícil atrair investimento e criar riqueza ao ritmo que seria desejável. Precisamos de um modelo de funcionamento do Estado mais ágil, que permita às regiões maior capacidade de decisão e gestão.
