João Matos: “Um bom professor é um eterno aprendiz”

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João Matos, aluno do Doutoramento em Ciências da Educação na Faculdade de Educação e Psicologia, tem construído um percurso marcado pela dedicação ao ensino e pela preocupação com a dimensão humana nas escolas. Mestre em Ciências da Educação, com especialização em Administração e Organização escolar pela Faculdade de Educação e Psicologia, pretende desenvolver o conceito de liderança compassiva em contexto educacional no seu projeto final de doutoramento. Nesta entrevista, partilha a sua visão sobre a importância de uma escola centrada nas pessoas e o papel do professor na atualidade: “despertar o melhor de cada um”.

 

O que o motivou a escolher a área das Ciências da Educação?

Toda a minha vida fui professor e toda a minha vida quis ser professor. Contudo, quis também continuar a ser aluno e aprender mais. Enveredar pela área das Ciências da Educação foi, para mim, uma continuidade lógica de um processo de crescimento pessoal e profissional.

 

Como descreveria o seu percurso na Universidade Católica Portuguesa no Porto?

Em 2018, ingressei na Faculdade de Teologia, para frequentar a Licenciatura em Ciências Religiosas e prossegui para um Mestrado na área de EMRC. Anos mais tarde, em 2023, a Faculdade de Educação e Psicologia pareceu-me a melhor opção para um Mestrado em Ciências da Educação, pelo renome da instituição, bem como dos docentes que a integravam, aliado ao regime pós-laboral do curso.
O que mais me marcou durante o Mestrado foi a partilha de saberes e de experiências, por parte dos docentes e dos colegas, quer da área de Administração e Organização Escolar, quer da área da Pedagogia Social. Ingressei depois no Doutoramento nesta área e tenho vivido esta fase com uma outra maturidade, fruto de um acumular de vivências anteriores, de pessoas com quem contactei, e de uma vida dedicada ao ensino.

 

“Cada vez mais, o desafio é o de humanizar o ensino, de tentar mudar o paradigma da escola como empresa, para passarmos a ter uma escola que sente.”

 

No Mestrado, escolheu a especialização em Administração e Organização Escolar. O que é que mais o desafia nesta área?

Durante muito tempo, dizia para mim mesmo que esta era uma área a evitar por ter uma grande carga de burocracia, e me parecer afastada da realidade escolar, mas o tempo foi mostrando que não era assim. Creio que, cada vez mais, o desafio é o de humanizar o ensino, de tentar mudar o paradigma da escola como empresa, para passarmos a ter uma escola que sente, que se preocupa, e que procura ajudar, não só a nível do sucesso escolar, mas do desenvolvimento da pessoa como um todo. Uma escola onde todos somos importantes, onde todos temos lugar, onde nos é permitido assumir as nossas vulnerabilidades.

 

Qual é o seu projeto de investigação no âmbito do Doutoramento em Ciências da Educação?

O meu projeto de investigação vai precisamente neste sentido, o da humanização da escola. Pretendo desenvolver o conceito da liderança compassiva em contexto educacional. Trata-se de algo que já está a ser implementado, com bons resultados, em contexto empresarial, mas que ainda é um tema emergente na área da educação. Encontra-se profundamente enraizado na compaixão, na preocupação com o outro, mas não se fica apenas por um sentimento de empatia. Trata-se de exercício ativo de melhoria da situação do outro, neste caso, de qualquer membro da comunidade educativa.

 

“É apenas através de uma estreita articulação e consonância entre escola e família que podemos formar cidadãos preocupados com o próximo.”

 

Como descreve a missão de ensinar?

Ensinar é acompanhar pessoas, ajudando a crescer por dentro e por fora. Alguém que trabalha na área da Educação deve conseguir despertar o melhor de cada um, usando a razão e o coração, e procurando aprender sempre. Um bom professor é um eterno aprendiz. É certo que a sociedade está em constante mudança, e que o papel do profissional da educação tem mudado muito ao longo do tempo. Ainda assim, sou da opinião de que ver os alunos acreditarem em si, e celebrar com eles todas as conquistas, grandes e pequenas, é o maior sucesso da nossa profissão.

 

Quais são os principais desafios que o sistema educativo português enfrenta?

Creio que um dos principais desafios do sistema educativo português é conseguir desprender-se das amarras do cumprimento dos programas, das metas, dos rankings - fomos criando a falsa perspetiva de que os alunos não podem errar, que devem ir todos ao mesmo ritmo, que devem ser bons a tudo. A escola tem-se tornado avessa à criatividade, ao espírito crítico, à participação dos alunos na tomada de decisões que lhes dizem respeito. Temos, por isso, de agir tendo em conta estas tendências, orientando os alunos para o melhor aproveitamento das suas capacidades.
Por outro lado, devemos considerar a forma como a sociedade olha para o papel do professor, e para a sua importância na transmissão de valores e na formação das crianças e jovens. É apenas através de uma estreita articulação e consonância entre escola e família, de uma continuidade entre as regras na escola e em casa, que podemos formar os adultos de amanhã para que sejam cidadãos preocupados com o próximo.

 

Que conselho daria a um aluno que pretenda estudar Ciências da Educação na Católica?

Numa primeira fase, perceber se é mesmo isso que quer e o que está disposto a fazer para o conseguir. Um curso superior requer esforço, dedicação e, acima de tudo, estabelecer prioridades.
Recordaria também que “sozinhos podemos ir mais rápido, mas juntos vamos certamente mais longe”: criar uma boa dinâmica de grupo entre colegas e com os professores é essencial para o sucesso.

 

Como encontra equilíbrio entre o seu percurso académico e outras áreas da sua vida?

Sou da opinião de que, com uma boa gestão de tempo, conseguimos fazer tudo a que nos dispomos. E, acima de tudo, conseguimos continuar a ser pessoas normais, que gostam de jantar com os amigos, de ir ao cinema, de fazer coisas em família. Para além dos estudos, tenho uma forte ligação à música, enquanto diretor coral, organista e solista, tendo passado pelo Coro Académico da Universidade do Minho. Procuro ir regularmente ao ginásio, gosto de jogar videojogos, de cozinhar e de conhecer locais diferentes e viver novas experiências. É este, para mim, o verdadeiro significado de uma vida em pleno.

 

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09-04-2026